O Onçafari, em parceria com o pesquisador Walfrido Tomas da Embrapa Pantanal, documentaram os primeiros registros de cervos-do-pantanal (Blastocerus dichotomus) melânicos. A descoberta foi detalhada na nota científica “First ever records of melanism in Marsh deer Blastocerus dichotomus” (Primeiros registros de melanismo em cervo-do-pantanal (Blastocerus dichotomus)), publicada na revista Notas sobre Mamíferos Sudamericanos.
Os registros foram realizados no Pantanal, na Caiman Pantanal, e Cerrado, no Parque Nacional Grande Sertão Veredas (PNGSV). Até então, embora casos de albinismo (perda total da pigmentação) e leucismo (perda parcial) já tivessem sido documentados em cervos-do-pantanal, não havia registros científicos de indivíduos melânicos na espécie.
- Crédito: Taile Emanuele
O primeiro registro ocorreu em fevereiro de 2021, quando a equipe do Onçafari observou uma fêmea adulta de cervo-do-pantanal com pelagem escura na Caiman Pantanal.
O bioma abriga cerca de 88% da população brasileira de cervos-do-pantanal, estimada em aproximadamente 40 mil indivíduos. Ainda assim, após 40 anos de pesquisas e levantamentos da espécie na região, nenhum indivíduo melânico havia sido oficialmente documentado na literatura científica. Depois deste registro, esse animal nunca mais foi avistado na área.
Mesmo sem registros científicos, relatos de pantaneiros sobre cervos de coloração escura já existiam na região. Um exemplo é a Baía do Cervo Preto, referência à possível presença desses animais.
Melanismo: uma característica rara
O melanismo é uma alteração na pigmentação caracterizada pelo excesso de melanina, que resulta em uma coloração mais escura da pelagem. Anomalias de pigmentação são consideradas raras entre mamíferos, com ocorrência em cerca de 13% das espécies, e já foram documentadas em diferentes espécies de cervídeos.
Desde 2022 a equipe do Onçafari realiza monitoramentos intensivos com armadilhas fotográficas no Parque Nacional Grande Sertão Veredas. Em 61.830 vídeos de câmera-trap, apenas 31 registros foram de cervos-do-pantanal, chamados nesta região do Cerrado de suçuaparas. Destes, três correspondiam a indivíduos melânicos.
Além dos registros por câmera, foram realizados 12 avistamentos de cervos-do-pantanal no parque, oito envolvendo cervos melânicos. Ao todo, considerando Pantanal e Cerrado, foram 12 registros de cervos melânicos, sendo um na Caiman Pantanal e 11 no Parque Nacional Grande Sertão Veredas.
No Cerrado, os indivíduos melânicos corresponderam a 66,7% dos avistamentos diretos da espécie realizados pela equipe durante o período. Depois da submissão desta nota científica, ocorreram outras observações diretas da espécie, incluindo o avistamento de um macho bem jovem com a pelagem escura.
A frequência de avistamento do cervo melânico no Cerrado
A espécie enfrenta um cenário de perda e fragmentação de habitat, redução de áreas úmidas e maior pressão humana. Esses fatores limitam o deslocamento dos animais e reduzem a conexão entre diferentes populações.
Em populações pequenas e isoladas, processos como deriva genética, isolamento e endogamia podem exercer maior influência sobre a composição genética. O Onçafari levantou a hipótese de que esses fatores possam estar favorecendo o melanismo na população do Cerrado.
“Estes registros no Cerrado servem de alerta para a conservação da espécie no bioma, pois essa mutação pode indicar que a saúde genética da população está em risco. Acreditamos que esses animais estejam bem confinados nos limites do Parque Nacional Grande Sertão Veredas, já que as áreas externas já estão bem degradadas e têm uma pressão de caça ainda maior. Isto resulta em isolamento populacional e, muito possivelmente, em uma maior frequência de indivíduos com melanismo”, afirma Edu Fragoso, Coordenador da base do Onçafari no Parque Nacional Grande Sertão Veredas e coautor do estudo.
A hipótese ainda precisa ser investigada. Os registros não permitem concluir que o isolamento seja responsável pelo melanismo, mas indicam uma possível relação.
Por isso, o monitoramento de longo prazo é essencial para registrar características que ainda não eram conhecidas, mas também identificar padrões e transformações ecológicas e genéticas ao longo do tempo.
Cada registro ajuda a ampliar o conhecimento sobre a espécie e pode trazer informações importantes para entender os desafios que ela enfrenta em diferentes paisagens do país.



