O que acontece com o território de uma onça-pintada enquanto a área onde ela percorre  se transforma? Essa foi uma das questões que o Onçafari explorou durante o lançamento da Coleção 11 do MapBiomas. Convidado para participar da demonstração da nova plataforma Meu MapBiomas, o Onçafari apresentou ao vivo um estudo baseado nos dados de monitoramento do Simplício, uma onça-preta que vive na região do Grande Sertão Veredas e da Pousada Trijunção.

A apresentação mostrou, na prática, como é possível cruzar os dados da área de vida de um animal com informações sobre o uso e as transformações do território. Essa combinação ajuda a entender melhor os desafios enfrentados pela fauna e a tomar decisões mais eficazes para a conservação.

Simplício como ponto de partida

Monitorado pelo Onçafari desde 2024 por meio do rádio-colar, Simplício possui dados de deslocamento que permitem mapear sua área de vida e compreender o uso do espaço ao longo do tempo.

Mas saber por onde uma onça se desloca é apenas uma parte da história. Para compreender os desafios enfrentados por ela, também é preciso olhar para o que acontece no local que ele vive.

Durante a demonstração, a equipe do Meu MapBiomas cruzou os dados da área de vida de Simplício com informações do último ano de área queimada, a recorrência de fogo e o histórico de uso e cobertura da terra entre 2018 e 2025 – período que coincide com os anos de vida do animal monitorado.

Dessa maneira, foi possível construir uma análise que conecta dois tipos de informação: os dados produzidos pelo monitoramento e as informações ambientais disponíveis na plataforma do MapBiomas.

O resultado revelou como a região por onde Simplício circula vem se transformando. Um dos principais destaques foi o avanço da agricultura: cerca de 60 mil hectares dentro da área de vida de Simplício foram transformados em áreas de cultivo de soja desde o seu nascimento.

Mesmo com a presença de grandes áreas abertas, os dados mostram que Simplício quase sempre escolhe se deslocar pela mata nativa. As exceções acontecem quando ele precisa atravessar áreas de lavoura, geralmente motivado por uma situação específica, como a presença de uma fêmea do outro lado da plantação ou a busca por uma presa. Nessas situações, o animal tende a fazer a travessia durante a noite, quando sua exposição é menor.

Meu MapBiomas

Apresentado durante o lançamento da Coleção 11, o Meu MapBiomas é uma nova plataforma que permite que organizações criem suas próprias análises e visualizações de dados territoriais.

Atualmente, 15 organizações já utilizam a plataforma, entre elas o Onçafari, a SOS Mata Atlântica, o Ministério do Meio Ambiente, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam) e a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA). Até dezembro de 2026, serão disponibilizados 100 acessos.

A ferramenta reúne os dados já disponibilizados pelo MapBiomas, como informações sobre vegetação, uso do solo, agricultura, pastagens, fogo e degradação. Essas informações podem ser combinadas com dados próprios, como áreas de vida de animais, registros de monitoramento por colares GPS, mosaicos de áreas protegidas e reservas particulares.

Na prática, isso significa que uma organização não precisa começar uma análise do zero ou depender de um especialista em geoprocessamento. A plataforma foi desenvolvida para que diferentes usuários possam explorar os dados e construir análises de forma mais autônoma.

Do território de uma onça à paisagem inteira

Embora o Simplício tenha sido o ponto de partida para a demonstração, a aplicação da ferramenta pode ir além.

Os dados produzidos pelo Onçafari podem ser utilizados para investigar diferentes questões relacionadas às paisagens onde a organização atua, como: analisar a composição e as transformações de uma área de conservação; estudar corredores ecológicos e reservas; acompanhar mudanças no uso da terra ou cruzar essas informações com históricos de fogo e degradação.

Já na frente Anti-Incêndio, a ferramenta pode ajudar a ampliar as análises sobre a ocorrência do fogo nas áreas de atuação do Onçafari. Já na frente de Ciência, dados de monitoramento da fauna podem ser relacionados às mudanças que acontecem nas paisagens onde eles vivem, entre outros.

Ter acesso à plataforma amplia a capacidade do Onçafari de fazer novas perguntas e transformar dados em conhecimento. E esse conhecimento pode contribuir para a conservação, ajudando a compreender ameaças, orientar estratégias, identificar áreas prioritárias e compartilhar com a sociedade as transformações que acontecem nas paisagens brasileiras.