Maior canídeo da América do Sul, de pernas longas, pelagem avermelhada e uma característica crina escura que se estende pela nuca, o lobo-guará (Chrysocyon brachyurus) é um dos animais mais emblemáticos do Cerrado. No Dia do Lobo-Guará, celebrado em 12 de outubro, vale conhecer um pouco mais sobre essa espécie e sobre o que podemos aprender acompanhando sua vida de perto.
Apesar do nome, o lobo-guará não é um lobo verdadeiro, é uma espécie única, sem parentes próximos entre os canídeos atuais, e apresenta características que refletem sua adaptação aos ambientes onde vive. Sua dieta é bastante variada: inclui frutos, como a lobeira, além de pequenos vertebrados, artrópodes e, ocasionalmente, presas maiores.
É uma espécie geralmente solitária. Os lobos-guará são raramente observados caminhando ou caçando juntos, mas uma vez que um casal é formado, a dupla passa a compartilhar o mesmo território. Além disso, o cuidado com os filhotes é compartilhado entre os pais: tanto a fêmea quanto o macho participam da criação da ninhada no primeiro ano de vida.
O monitoramento de lobo-guará no Cerrado pelo Onçafari
Em 2018, o Onçafari começou sua atuação no Cerrado, na Pousada Trijunção, uma área de mais de 33 mil hectares localizada na divisa entre Minas Gerais, Bahia e Goiás, para monitorar o lobo-guará em ações que envolvem ecoturismo, ciência, reintrodução e atividades sociais e de educação.
No ecoturismo, o trabalho combina o monitoramento dos animais com educação ambiental, permitindo que os lobos-guarás sejam observados em vida livre sem que tenham seu comportamento alterado, graças ao trabalho de habituação à presença do veículo de campo. Ao mesmo tempo, a equipe acompanha seus deslocamentos, comportamento, saúde e relações com o ambiente, utilizando observações em campo, armadilhas fotográficas e, em alguns indivíduos, colares de GPS e VHF.
O primeiro colar em um lobo-guará na Pousada Trijunção foi colocado ainda em dezembro de 2018, no lobo-guará Diadorim. Desde então, o monitoramento contínuo permitiu acompanhar 18 indivíduos em 8 anos, descobrindo mais sobre essa espécie e o Cerrado.
De toca em toca, acompanhando novas gerações
Ao longo dos anos, o Onçafari já acompanhou diferentes lobas durante o período reprodutivo na Trijunção. Isso permite observar uma fase da vida dos animais que dificilmente seria observada através dos encontros diretos: os primeiros meses de desenvolvimento, a relação com os pais e o processo de independência dos filhotes.
Algumas dessas histórias continuam de uma geração para outra, como é o caso de Savana. Ela nasceu da ninhada de 2021 de Nhorinhá, uma fêmea que foi monitorada pelo Onçafari durante 5 anos, até seu falecimento, em 2023. Depois da morte de Nhorinhá, Savana voltou para a região da Pousada Trijunção, onde passou a ocupar o antigo território da mãe. Já adulta, formou um par com Barão e, desde então, os dois passaram a protagonizar uma nova história reprodutiva acompanhada pela equipe.
Em junho de 2023, Savana e Barão tiveram sua primeira ninhada registrada pelo Onçafari. No ano seguinte, o casal teve uma nova ninhada. Desde então, os dois continuam compartilhando o território, e a equipe segue acompanhando suas ninhadas: ao todo, o casal já teve quatro ninhadas..
Cada nova ninhada é uma oportunidade de acompanhar de perto uma etapa diferente da vida dos lobos-guarás: os filhotes começam a explorar o entorno da toca, passam a acompanhar os pais em seus deslocamentos e, gradualmente, desenvolvem as habilidades necessárias para viver de forma independente, fornecendo, assim, informações valiosas para a equipe que os monitora.
Cada registro, novas descobertas
Embora o lobo-guará tenha uma alimentação bastante variada, baseada principalmente em frutos e pequenos animais, há registros que indicam o consumo de presas de maior porte.
No entanto, ainda se sabe pouco sobre como essas presas são caçadas, já que existem poucos registros científicos de perseguição e predação de animais de grande porte por lobos-guarás.
Por isso, durante o monitoramento realizado pelo Onçafari, Buriti surpreendeu a equipe de campo ao ser observado predando uma ema adulta em 2022. O macho é acompanhado desde 2021 e, naquele período, era parceiro de Nhorinhá.
A observação deu origem à nota científica First record of a maned wolf preying on greater rhea, publicada em 2026. O trabalho representa o primeiro registro documentado de um lobo-guará predando uma ema adulta, ampliando o conhecimento sobre a dieta e o comportamento da espécie.
Seguindo os passos do pai, Savana também passou a perseguir e predar animais pouco comuns na dieta dos lobos-guarás. Desde o nascimento de sua primeira ninhada, em 2023, a fêmea já foi observada predando filhotes de veado-campeiro em dois dias consecutivos e, em outras ocasiões, carregando partes de carcaças de cervídeos.
O que o monitoramento de longo prazo permite descobrir
Acompanhar uma espécie por anos permite ir além de registros isolados e construir uma visão mais completa de sua vida. É possível reconhecer indivíduos, acompanhar seu crescimento e deslocamentos, observar mudanças de comportamento, identificar relações entre animais e acompanhar diferentes gerações ao longo do tempo.
É esse olhar contínuo que transforma cada observação em parte de uma história maior: uma toca encontrada, um filhote que cresce, um comportamento inesperado ou um encontro fora de época acrescentam novas informações sobre a espécie. Ao longo dos anos, essas informações ampliam o conhecimento necessário para compreender e proteger o lobo-guará e o Cerrado.
