As projeções da Organização Meteorológica Mundial (OMM) indicam a possibilidade do El Niño 2026 ser forte e de alta intensidade, cenário que acende o alerta do Onçafari para o aumento do risco de incêndios florestais, ondas de calor e seca extrema, colocando em risco a biodiversidade brasileira. Embora o fenômeno faça parte do ciclo natural do clima, cientistas alertam que seus efeitos são cada vez mais intensificados pelo aquecimento global provocado pelas atividades humanas.
Caracterizado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial (nas regiões 3 e 4) em 0,5 °C ou mais acima da média por vários meses seguidos, o El Niño altera a dinâmica global do clima. Esse fenômeno modifica a circulação dos ventos e a formação de nuvens, além de redistribuir calor e umidade na atmosfera, provocando mudanças nas chuvas e temperaturas em diversos continentes.

Legenda: Formação do El Niño nas regiões 3 e 4 do Oceano Pacífico, região mais escura no mapa. Créditos: Reprodução MetSul Metereologia
O fenômeno começa a se desenvolver durante o primeiro semestre do ano, consolida-se entre o inverno e a primavera do Hemisfério Sul e produz seus principais impactos entre o fim do ano e os primeiros meses do ano seguinte. Normalmente, os eventos ocorrem em intervalos que variam entre dois e sete anos, com variação de intensidade e duração entre eles. Na última década, em razão dos efeitos das mudanças climáticas, os eventos vêm ocorrendo com maior frequência e intensidade, segundo alerta dos cientistas.
Os Impactos do El Niño
Embora o El Niño seja um processo climático natural, ele hoje ocorre em um planeta cuja temperatura média já aumentou cerca de 1,3°C em relação ao período pré-industrial, segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Portanto, o aquecimento global funciona como um fator de intensificação: o El Niño continua sendo um fenômeno natural, mas seus efeitos tendem a ser amplificados por uma atmosfera mais quente, aumentando a frequência de eventos extremos, como secas prolongadas e chuvas intensas.
Enquanto o Sul do Brasil tende a registrar chuvas acima da média, aumentando o risco de enchentes e deslizamentos, parte do Centro-Oeste, Norte e Nordeste enfrenta redução das chuvas, períodos prolongados de seca e temperaturas mais elevadas.
Esses eventos extremos combinados com o desmatamento, fragmentação dos habitats naturais e perda da cobertura vegetal reduzem a capacidade das florestas de regular o clima, fazendo com que os ecossistemas fiquem mais secos, armazenem menos umidade e se tornem mais vulneráveis à ocorrência e à propagação de incêndios.
Diante desses desafios, desde 2020 o Onçafari ampliou sua atuação para a construção e consolidação de corredores ecológicos, através da aquisição de áreas em locais estratégicos para a conservação, fundamentais para manter paisagens conectadas e garantir o deslocamento da fauna e o fluxo genético entre populações, por meio da Frente de Florestas. Atualmente, a organização possui onze reservas próprias distribuídas entre Amazônia, Pantanal e, mais recentemente, Mata Atlântica, que somam mais de 125 mil hectares protegidos.
Essa visão também orienta a Jaguar Rivers Initiative (JRI), iniciativa internacional desenvolvida em parceria com Rewilding Argentina, Nativa (Bolívia) e Fundación Moisés Bertoni (Paraguai). O projeto propõe a construção de um corredor ecológico continental ao longo da Bacia do Paraná, conectando cerca de 2,5 milhões de km² por meio de grandes áreas preservadas, paisagens integradas, trampolins ecológicos e corredores naturais formados pelos próprios rios.
Frente Anti-Incêndio Diante dos Desafios
Independentemente da ocorrência de fenômenos climáticos como o El Niño, a premissa do Onçafari permanece a mesma: em tempos de mudança climática, todo incêndio é extremo.
Por isso, as ações da frente Anti-Incêndio são planejadas e aprimoradas anualmente para estruturar ações robustas, com a finalidade de reduzir riscos, fortalecer a capacidade de resposta e preparar as equipes para a prevenção e combate.
Em 2026, dado o cenário do El Niño, grande parte dessas medidas foi antecipada em relação aos anos anteriores. Enquanto os planos operativos, capacitações e aquisições normalmente eram concluídos até o meio do ano, em 2026, a fase de preparação foi finalizada em abril e as reservas já estão realizando ações preventivas, como aceiros.
- Créditos: Julia Santos
- Créditos: Julia Santos
- Créditos: Julia Santos
Cada uma das reservas próprias do Onçafari conta com um Plano de Prevenção, Preparação e Combate aos Incêndios Florestais (PPCIF), para garantir consulta rápida e tomada de decisão em situações de emergência. O documento reúne informações estratégicas sobre recursos humanos, equipamentos, logística, cadeia de comando e protocolos de atuação, além de definir as ações previstas para cada território. Em 2026, os planos operativos contemplam, no conjunto das reservas, a limpeza de 353 km de aceiros, a construção de outros 41,8 km, a realização de três cursos de Sistema de Comando de Incidentes (SCI) e formação de brigadistas, além da contratação de seis novos brigadistas.
Os incêndios de 2024
Em 2024, o Pantanal enfrentou uma das temporadas de fogo mais severas já registradas. O cenário foi resultado da combinação de diferentes fatores, entre eles o acúmulo de combustível orgânico favorecido pelo El Niño de 2023-2024, a interferência humana e condições meteorológicas extremas, como estiagem prolongada, temperaturas elevadas e baixa umidade do ar, criando condições favoráveis para a rápida propagação do fogo em todo o bioma.
Os incêndios catastróficos de 2024 devastaram cerca de 1,9 e 2,6 milhões de hectares no Pantanal, o equivalente a 15% a 17% de todo o bioma, segundo dados do Lasa/UFRJ, enquanto as áreas de atuação do Onçafari tiveram em média 105 mil hectares atingidos entre oito bases próprias do Onçafari.
Hoje, o foco do Onçafari não está apenas na resposta aos incêndios, mas principalmente em evitar que eles aconteçam a partir da prevenção e do fortalecimento das relações com as comunidades locais.
“Os incêndios em 2024 deixaram marcas profundas, inclusive com a perda da Gaia, uma das primeiras onças monitoradas pela organização. A experiência, embora muito desafiadora, nos deixou lições importantes que serviram para nos tornar muito mais preparados e responsivos contra os incêndios. Atualmente, o Onçafari é a primeira organização da sociedade civil do Brasil a ter um Plano de Manejo Integrado do Fogo licenciado em uma propriedade privada e tem um protocolo de pronta resposta bastante robusto para atuar em caso de incêndios simultâneos.”
– Ananda Andrade, Coordenadora do Manejo do Fogo do Onçafari




