Celebrado no Brasil em 19 de abril, o Dia dos Povos Indígenas é um convite para reconhecer a diversidade, a história e, sobretudo, o papel fundamental desses povos na conservação da biodiversidade.

Os povos indígenas são os habitantes originários de diferentes regiões do planeta, com formas próprias de organização social, línguas, culturas e modos de vida profundamente conectados ao território. Ao longo de gerações, acumularam conhecimentos sobre os ciclos naturais, o manejo de recursos e a convivência equilibrada com o ambiente. Esses saberes orientam práticas que contribuem diretamente para a manutenção de florestas, rios e paisagens naturais, posicionando essas populações como protagonistas na conservação da biodiversidade.

No contexto global, os povos indígenas somam mais de 476 milhões de pessoas distribuídas em cerca de 90 países, segundo dados da ONU. Juntas, essas populações ocupam aproximadamente um quarto das terras do planeta e estão associadas à proteção de cerca de 80% da biodiversidade mundial.

No Brasil, essa diversidade se traduz em quase 400 etnias indígenas e cerca de 290 línguas diferentes, de acordo com o Censo Demográfico de 2022. As Terras Indígenas reconhecidas correspondem a cerca de 14% do território nacional, somando mais de 110 milhões de hectares, com grande concentração na Amazônia Legal, onde desempenham papel essencial na proteção das florestas.

Estudos do MapBiomas (2022) mostram que esses territórios funcionam como barreiras contra o desmatamento. Ao longo das últimas três décadas, as Terras Indígenas perderam cerca de 1% de sua vegetação nativa, enquanto, em áreas privadas, chegou a 20,6%. Esses dados reforçam que a presença indígena está diretamente associada à conservação dos ecossistemas.

Apesar dessa relevância, os povos indígenas enfrentam desafios constantes, como a expansão da agricultura, o avanço do desmatamento, a mineração ilegal, conflitos fundiários e os impactos das mudanças climáticas. Essas pressões ameaçam não apenas os territórios, mas também os modos de vida e seus conhecimentos tradicionais.

Povos indígenas e conservação no Pantanal

No Pantanal, a presença indígena está diretamente ligada à forma como o bioma é compreendido e vivido. A região abriga cerca de 10 povos indígenas, entre eles Guató, Terena, Kadiwéu, Kinikinau, Ofaié e Bororo, distribuídos principalmente entre Mato Grosso e Mato Grosso do Sul. Mesmo ocupando uma área menor em relação à Amazônia, esses povos mantêm uma relação profunda com a paisagem, baseada no entendimento dos ciclos naturais que estruturam o bioma.

Crédito imagem: Julia Santos

Crédito imagem: Julia Santos

O regime de cheias e secas, que transforma completamente o Pantanal ao longo do ano, é parte central desse conhecimento. A adaptação a esses ciclos, o manejo do fogo e o uso equilibrado dos recursos naturais são práticas que contribuem diretamente para a manutenção da biodiversidade. No entanto, esse equilíbrio vem sendo pressionado pela expansão da agropecuária, pelas mudanças no uso da terra e pelo aumento de eventos extremos, como as queimadas que, apenas em 2024, atingiram cerca de 2,6 milhões de hectares do bioma.

A atuação do Onçafari com comunidades indígenas

É nesse contexto que o Onçafari desenvolve iniciativas de conservação integrada, reconhecendo o papel central das comunidades indígenas na proteção dos ecossistemas. Um exemplo é o projeto Pemega Perigara?, desenvolvido desde 2022 em parceria com o povo Boe Bororo, – em conjunto com a Associação Itura Kurireu (AIK) -, na Terra Indígena Perigara.

A parceria tem como base o fortalecimento da autonomia da comunidade na gestão do território, reconhecendo que a conservação está diretamente ligada à capacidade das populações locais de proteger e manejar suas próprias terras.

Crédito imagem: Stephanie Birrer

Crédito imagem: Stephanie Birrer

A regularização da Associação Itura Kurireu foi conquistada em 2024, o que ampliou as possibilidades de acesso a recursos e participação em iniciativas externas.

O projeto também promove o fortalecimento cultural e o protagonismo indígena. Um exemplo foi a realização do II Encontro das Mulheres Boe Bororo, que reuniu mais de 200 participantes e fortaleceu espaços de troca, articulação e valorização dos saberes tradicionais. Representantes da comunidade também passaram a participar de agendas estratégicas, como a COP Pantanal, ampliando a visibilidade de suas pautas.

Em 2025 Brigada de Incêndio da Terra Indígena Perigara foi fortalecida com a construção de um almoxarifado, a implementação de 30 km de aceiros em parceria com a RPPN SESC Pantanal e a capacitação de brigadistas em cursos técnicos, incluindo o Sistema de Comando de Incidentes (SCI 100 e SCI 200), além de treinamentos em pilotagem de drone e manutenção de equipamentos.

Crédito imagem: EJF

Crédito imagem: EJF

A parceria com o povo Boe Bororo evidencia, na prática, como o conhecimento tradicional e a gestão territorial indígena são fundamentais para a conservação. A relação histórica com o território, aliada ao fortalecimento da autonomia comunitária, contribui diretamente para a proteção da biodiversidade e para a manutenção dos ecossistemas.

Ao apoiar essas iniciativas, o Onçafari reforça um princípio essencial: a conservação da natureza está profundamente conectada às pessoas que vivem e cuidam desses territórios. Onde há território indígena protegido, há também maior preservação ambiental. Fortalecer essas comunidades é, portanto, fortalecer a própria biodiversidade.