Onça-preta e onça-pintada são animais da mesma espécie (Panthera onca). Uma mãe com melanismo pode ter um filhote com coloração diferente – Foto: nix6658/Creative Commons

*Por Fábio Paschoal

Você sabia que onça-preta e onça-pintada são animais da mesma espécie? É isso mesmo! Análises genéticas comprovam que ambas são representantes de Panthera onca. Isso pode parecer estranho quando falamos de animais selvagens, mas pense na nossa variação de cor de pele. O IBGE nos classifica em negros, brancos, pardos, amarelos ou indígenas e, independente de nossa cor, somos todos seres-humanos e pertencemos à mesma espécie (Homo sapiens).

No caso das onças, a coloração escura é causada por uma mutação genética que aumenta a quantidade de melanina, uma das proteínas responsáveis pela pigmentação da pele e dos pelos. Por isso, animais pretos são chamados de melânicos. Essa característica não é exclusiva da Panthera onca, leopardos melânicos são os mais conhecidos pelo público e são chamados de panteras negras, nome que também é utilizado para se referir às onças-pretas (veja as diferenças entre onças-pintadas e leopardos).

Dependendo da incidência da luz, é possível ver as rosetas e pintas da onça-preta – Foto: Tony Hisgett/ Creative Commons

Um estudo publicado no periódico científico PLOS ONE afirma que o melanismo já foi documentado em 13 espécies de felinos diferentes e analises moleculares iniciais revelaram que a característica surgiu várias vezes na família. Isso significa que mutações diferentes em espécies diferentes levaram ao aparecimento de indivíduos negros.

No caso da onça-pintada, o melanismo é uma característica dominante. Em geral, características dominantes são encontradas na maior parte de uma população. Ou seja, quando uma onça-preta cruza com uma onça-pintada, existe uma probabilidade maior de nascerem filhotes pretos. No entanto, onças melânicas são raras e aparecem em uma frequência muito menor do que indivíduos amarelos na natureza. Por que será que isso ocorre?

O artigo Análise da distribuição espacial do melanismo na família felidae em função de condicionantes ambientais  examinou 794 amostras de onças-pintadas provenientes de coleções científicas, armadilhas fotográficas, capturas e DNA fecal cobrindo a maior parte da distribuição geográfica da espécies e encontrou uma frequência de 9% de onças-pretas. Os registros ocorreram em regiões da Amazônia, Caatinga, Cerrado e Mata Atlântica.

Curiosamente a variação não foi encontrada no Pantanal. O bioma possui uma das populações mais estudadas e estáveis de onça-pintada com alta abundância de indivíduos e habitats razoavelmente bem preservados. Fatores como umidade, temperatura, precipitação e, principalmente, a radiação solar são determinantes para a ocorrência de indivíduos melânicos. Ou seja, é a ação da seleção natural que desfavorece a presença da onça-preta na maior parte do Brasil. A mesma conclusão pode ser encontrada no livro Panthera onca – à sombra das florestas.

A verdade é que sabemos muito pouco sobre a onça-preta e mais estudos são necessários para entender melhor esse felino extraordinário.

*Fabio Paschoal é biólogo, jornalista e guia de ecoturismo. Foi editor e repórter de National Geographic Brasil por 5 anos e hoje é produtor de conteúdo do Onçafari e da GreenBond

A onça-preta carrega o charme das rosetas, porém em um elegante tom escurecido – Foto: Lucas Leite

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