O ano de 2025 foi mais um capítulo marcante na história do Onçafari, um período em que conservação e pessoas se conectaram para enfrentar os desafios da biodiversidade brasileira. Em um cenário marcado por incêndios florestais, perda de habitats e pressões constantes sobre a fauna brasileira, nossas ações seguiram guiadas pela busca de equilíbrio.
No campo, celebramos avanços na reintrodução de fauna, um esforço que busca devolver à natureza animais resgatados. Devolvemos pacas, tucanos, cutias e macacos-prego para os respectivos habitats de origem, na região da Reserva Santa Sofia, no Pantanal. Um marco histórico foi a reintrodução de Valente, a primeira anta que retornou com sucesso à natureza pelo Onçafari. Resgatado jovem durante os incêndios de 2024, Valente passou por meses de cuidados intensivos e monitoramento rigoroso até o momento de sua soltura na região da Caiman Pantanal.
O ecoturismo seguiu como uma ferramenta importante para promover a conscientização da fauna silvestre. Na Pousada Trijunção, o ecoturismo em conjunto do acompanhamento contínuo do lobo-guará têm permitido que, ano após ano, os índices de avistamento cresçam. Em 2025, foram registrados 381 avistamentos, alcançando uma taxa de observação de 87%, um resultado marcante para o Onçafari, considerando que é uma espécie de difícil avistamento.
Já na Caiman Pantanal, ao todo, foram registrados 1.131 avistamentos ao longo do ano, com um aumento de 23.451 minutos no tempo total de observação em comparação ao ano anterior, permitindo encontros mais longos e ricos em informações. A maior parte desses registros envolveu fêmeas (com 82,7%), muitas delas acompanhadas de filhotes. Esses dados destacam como o ecoturismo, aliado ao trabalho de campo, contribui para a conservação e para o avanço do conhecimento sobre a onça-pintada, permitindo observar de forma contínua diferentes aspectos do comportamento da espécie.
Ambos os resultados são fruto de um processo construído ao longo dos anos. No início da atuação do Onçafari, os avistamentos eram raros e quase incertos, e hoje tornaram-se mais frequentes a partir do processo de habituação, monitoramento contínuo e dados científicos.
- Savana, lobo-guará monitorado na Pousada Trijunção, Cerrado. Foto: Murilo Frasão
- Onça-pintada Aracy e seu filhote Mocoha, monitorados na Caiman Pantanal. Foto: Lucas Morgado
A frente de ciência também avançou em 2025, ampliando nosso entendimento sobre a vida selvagem e apoiando decisões estratégicas de conservação. Em 2025, consolidamos 20 parcerias com universidades e centros de pesquisa do Brasil e do exterior, publicando 38 artigos científicos baseados em dados coletados de colares GPS e VHF das onças-pintadas e lobos-guará. Esses estudos permitiram compreender melhor como diferentes espécies utilizam o território, quais habitats são mais adequados e como podemos agir para conservar áreas estratégicas. Em paralelo, o monitoramento de fauna expandiu para oito bases ativas: Anavilhanas Jungle Lodge, Fazenda Velocitta, Legado das Águas, São Paulo Catarina Aeroporto Internacional, Parque Nacional do Itatiaia, Iporanga, Vera Lucia/Barra Mansa e Seringal Guajará para 2026, fortalecendo a rede de observação do Onçafari pelo território brasileiro.
Ao longo do ano, tornou-se ainda mais evidente que a proteção das espécies, sobretudo da onça-pintada, depende da integridade das florestas e das conexões entre elas. Em 2025, o Onçafari aprofundou sua atuação voltada à conservação de paisagens e florestas, ampliando sua presença em novas áreas e contribuindo para a construção de corredores ecológicos entre o Pantanal e a Amazônia.
Um destaque histórico foi a união entre quatro organizações da América Latina para a formação do Jaguar Rivers Initiative – JRI (Rios da Onça). Onçafari (Brasil), Rewilding Argentina, Nativa (Bolívia) e Fundación Moisés Bertoni (Paraguai) unem esforços para um objetivo ousado em comum: criar um corredor ecológico de escala continental, conectando áreas naturais ao longo da Bacia do Rio Paraná para promover a restauração de ecossistemas da América do Sul. Ao integrar corredores ecológicos que cruzam Argentina, Bolívia, Brasil e Paraguai, fortalecemos a proteção de habitats essenciais para a onça-pintada e para milhares de outras espécies, mostrando que a conservação precisa olhar para além de fronteiras e integrar paisagens inteiras. Leia mais aqui.
Entretanto, incêndios florestais são uma das maiores ameaças à biodiversidade. Em 2025 nossa frente Anti-Incêndio ajudou a reduzir 98,5% dos focos de calor nas áreas monitoradas. Foram investidos 258 equipamentos, capacitação de 18 funcionários como brigadistas e limpeza de 235 km de aceiros e cercas, criando barreiras essenciais de vegetação para conter o fogo. As ações ao longo do ano priorizaram o preparo do território e das equipes, fortalecendo estratégias de prevenção do fogo.
Um dos destaques da frente foi o projeto “Perigara em Chamas, Não Mais”, que surgiu como uma resposta direta aos impactos severos dos incêndios de 2024, quando mais de 80% da Reserva São Francisco do Perigara foi atingida pelas chamas. Com o apoio do programa ADM Cares, o projeto construiu aceiros e reservatórios de água, além de implementar um sistema de monitoramento 360º para fortalecer a prevenção e o combate ao fogo na reserva. Hoje, esses esforços protegem uma área de 35.700 hectares, tornando a comunidade mais preparada e a reserva mais segura contra futuros incêndios.
Ao longo de 2025, o Onçafari seguiu acompanhando o povo Boe Bororo, na Terra Indígena Perigara, em iniciativas como a comercialização de parte da produção da roça comunitária, encontro de mulheres indígenas, capacitação da Brigada de Incêndio e a construção de um almoxarifado para organizar e inventariar os materiais utilizados na prevenção e no combate ao fogo. Essas ações integram o Projeto Pemega Perigara, desenvolvido há três anos na Terra Indígena Perigara, e têm como foco fortalecer a autonomia da comunidade na conservação do território e na proteção do ecossistema local.
Tudo isso só foi possível graças a uma rede sólida de parceiros. Em 2025, contamos com o apoio de 48 organizações, empresas e doadores que contribuíram de diferentes formas, viabilizando desde o monitoramento de fauna até ações de prevenção de incêndios e projetos editoriais. Eventos como o OnçaPartners e o jantar Onde há Onça, há Vida em Equilíbrio ajudaram a ampliar o diálogo sobre conservação e a fortalecer uma rede comprometida com a proteção da biodiversidade de forma coletiva.
Mais do que um balanço, esta retrospectiva é um convite a seguir construindo caminhos em rede, reconhecendo que paisagens saudáveis, comunidades fortalecidas e espécies protegidas fazem parte de um mesmo sistema. Onde a onça encontra espaço para existir, a vida em equilíbrio também se torna possível.







