No dia 29 de novembro, celebramos o Dia Internacional da Onça-Pintada, uma data criada para lembrar a importância de proteger um dos animais mais emblemáticos da fauna brasileira. Esse dia dedicado à espécie é um período de conscientização sobre o papel essencial desse felino na natureza e sobre os esforços de conservação.
A onça-pintada (Panthera onca) é o maior felino das Américas e o terceiro maior do mundo, ficando atrás apenas do tigre e do leão. Símbolo de força, beleza e equilíbrio ecológico, ela é considerada a guardiã da biodiversidade do Brasil. Com até 2,5 metros de comprimento e mais de 100 kg, a onça é uma predadora de topo, fundamental para manter a saúde e o equilíbrio dos ecossistemas onde vive.
Originalmente distribuída do sul dos Estados Unidos até o norte da Argentina, a espécie já perdeu mais de 50% de seu território natural. Hoje, o Brasil abriga a maior população de onças-pintadas do planeta, com destaque para a Amazônia e o Pantanal, que ainda mantêm grandes áreas preservadas. Em outros biomas, o cenário é mais preocupante: no Cerrado, a espécie está classificada como “em perigo”; na Mata Atlântica e na Caatinga, “criticamente ameaçada”; e no Pampa, já é considerada extinta, de acordo com a IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza). A perda de habitat, a fragmentação de florestas e a caça ilegal estão entre as principais ameaças à sobrevivência desse felino, que enfrenta pressões variadas em cada região.

Tabela de conservação global da espécie da IUCN (União Internacional para a Conservação da Natureza).
Um caso emblemático é o de Jatobazinho, macho reintroduzido no Parque Iberá, na Argentina, por meio de uma parceria entre o Onçafari e a Rewilding Argentina, após sete décadas de ausência da espécie no país vizinho. Jatobazinho se adaptou rapidamente ao novo território e, ao longo de três anos, deixou mais de 13 descendentes, ajudando a reconstruir uma população de onças-pintadas na região.
Legenda: onça-pintada Amburana e Tata de Lucas Morgado e Jatobazinho de Victoria Pinheiro.
Mesmo diante das alterações provocadas pela ação humana, a onça-pintada mostra uma grande capacidade de adaptação. Suas populações variam conforme o habitat e a disponibilidade de presas, refletindo as diferenças comportamentais e físicas da espécie em diferentes ambientes.
A onça-pintada possui a mordida mais forte proporcionalmente entre os grandes felinos, suficiente para perfurar crânios e carapaças. A espécie também é o único grande felino das Américas capaz de emitir o esturro, um som grave e potente usado na comunicação e na marcação de território, reforçando fronteiras invisíveis que evitam encontros indesejados entre outros da espécie.
Elas também marcam território por meio das árvores. Ao arranharem troncos, deixam marcas visuais, como também químicas: glândulas entre os dedos liberam feromônios que permanecem impregnados na casca, alertando outros indivíduos de que aquele espaço já está ocupado. As árvores, porém, não servem apenas para marcação de território, elas desempenham outras funções na rotina da espécie.
A onça-pintada sobe em árvores para descansar em segurança, vigiar o ambiente, evitar áreas alagadas, buscar rotas alternativas, esconder presas menores ou ganhar vantagem durante a caça. Essa habilidade reforça a versatilidade da espécie, capaz de se movimentar com eficiência tanto no solo quanto nas copas.
Assim como no topo das árvores, as onças-pintadas demonstram outra grande habilidade na água, utilizando rios e baías como estradas naturais. No Pantanal, por exemplo, atravessam longas distâncias a nado, perseguem presas dentro d’água e até mergulham para capturar presas, como os jacarés.
Visivelmente, cada indivíduo também possui uma “marca registrada”: as rosetas, manchas únicas como impressões digitais, que revelam a identidade individual de cada uma e fornecem camuflagem em diferentes ambientes. E entre as variações da espécie, destaca-se a onça-preta, resultado de uma mutação genética chamada melanismo, que intensifica a produção de melanina e escurece toda a pelagem, sem ocultar as rosetas.
A reprodução da onça-pintada é marcada por um comportamento estratégico de continuação da espécie, na qual as fêmeas podem copular com mais de um macho durante o período fértil para aumentar as chances de fecundação. Após um período de gestação de cerca de 90 a 110 dias, os filhotes vêm ao mundo cegos e completamente dependentes da mãe, que escolhe áreas isoladas e protegidas para o parto, garantindo maior segurança nos primeiros meses de vida.
Os jovens permanecem com a mãe por aproximadamente um ano e meio a dois anos, período crucial para o aprendizado. É ela quem ensina técnicas de caça, locomoção em diferentes ambientes, como nadar em áreas alagadas ou subir em árvores para vigiar e descansar, além de ensinar comportamentos essenciais para a sobrevivência.
Legenda: onça-pintada Aracy e seu filhote Mocoha de Lucas Morgado, onça-preta Simplício de Edu Fragoso e onça Timburé de Lucas Morgado.
A possibilidade do Onçafari de observar onças-pintadas tão de perto se deve à prática da habituação, um processo que permite que as onças se acostumem gradualmente à presença de veículos sem interferir em seus comportamentos naturais, e é essa técnica é o que torna possível o ecoturismo no Pantanal. A onça Esperança, considerada a “grande mãe” do Onçafari, foi uma das primeiras a ser habituada, e desde então, muitos de seus descendentes continuaram protagonizando encontros inesquecíveis com a equipe e visitantes. Desde 2011, o Onçafari já identificou mais de 270 onças-pintadas apenas na região da Caiman Pantanal, utilizando tecnologias como colares GPS, câmeras-trap e telemetria para compreender melhor o comportamento, as interações e os deslocamentos desses animais.
Neste Dia da Onça, o Onçafari celebra a presença desse felino representante da biodiversidade brasileira. A conservação da onça-pintada é, acima de tudo, um convite à coexistência: entender que proteger esse predador é proteger todo o ecossistema que ele vive. Que o esturro da onça continue ecoando pelas florestas, cerrados e planícies das Américas por muitas gerações, lembrando-nos que onde há onça, há vida em equilíbrio!
Conheça mais das histórias das nossas onças monitoradas no Pantanal: Aracy, Aroeira, Formoso e Dakari.
Escrito por: Maria Julia Farias
Foto de capa: Lucas Morgado







